UMA
QUESTÃO DE HONRA
João Mellão Neto.
Texto
Parcial do original publicado no jornal "O Estado de S.Paulo"
de 08/03/02.
Você,
leitor, muito provavelmente não sabe o que é um
"pemezito". Trata-se de uma medalha redonda sobre um
fundo de couro que alguns policiais ostentam no bolso esquerdo
da camisa. A Láurea do Mérito Pessoal é um
privilégio de poucos. Somente os melhores entre os melhores
logram alcançá-la. É a marca dos bravos,
daqueles que se destacaram - revelando inteligência e destemor
- no confronto com os bandidos. A cor do couro varia - preto,
vermelho, branco. Aqueles poucos que chegam à cor branca
se tornam verdadeiras lendas vivas na corporação.
Sempre que converso com um policial militar e vejo no seu uniforme
um "pemezito", faço questão de cumprimentá-lo.
Ajo assim porque sei que ninguém o faz. Aquele homem é
um herói. Mas é um herói anônimo, incompreendido,
uma vez que a esmagadora maioria da população não
faz a menor idéia do que aquela condecoração
significa. Não lhe conferimos o menor valor. Mal sabemos
nós o quanto de si aquele policial empenhou para merecê-la.
O "pemezito" é o símbolo maior do imenso
abismo de valores, crenças e convicções que
distingue o policial do cidadão comum. Nós não
costumamos arriscar a vida por medalhas. Lutamos por dinheiro,
conforto, status, poder. Jamais por recompensas simbólicas.
Não obstante o policial o faz. Para ele, o valor maior
é a honra, sua grande ambição é o
reconhecimento. Alguns dirão que tudo isso é bobagem,
que não são todos os policiais que pensam assim.
Todos não, concordo. Mas a maioria, com certeza. O que
levaria milhares e milhares de jovens, todos os anos, a abraçar
a carreira policial? O que leva centenas de filhos da classe média
a procurar a Academia do Barro Branco? Existem horizontes mais
promissores. A carreira policial, como o sacerdócio, é
antes de tudo uma vocação. Os exames de admissão
são difíceis, o curso é penoso, a disciplina
é férrea, os sacrifícios e renúncias
pessoais são inúmeros. Tudo isso em troca do quê?
De uma carreira rígida, com baixa remuneração,
poucas recompensas e altíssimo risco - inclusive da própria
vida. Refiro-me, aqui, a policiais militares, mas o argumento
também é valido, em grande parte, para os civis.
O treinamento é árduo. Uma coisa é preparar
gerentes para trabalhar em empresas; outra, bem diferente, é
forjar soldados para enfrentar uma guerra.
No
futuro policial há de se incutirem valores tais como o
brio, a disciplina, a hierarquia, o espírito de corpo,
a coragem, a renúncia de bens e o sentimento exaltado do
dever. É uma preparação massacrante. Mas
dela emerge um novo homem. Um homem substancialmente diferente
dos demais. Muitos se corrompem pelo caminho, é verdade.
Outros tantos acabam por adotar padrões éticos mais
liberais. Mas a maioria não. Os valores que lhes foram
incutidos permanecem por toda a vida. Dê-lhes reconhecimento
e eles serão capazes de operar milagres. Mas negue-lhes
isso e os terá despojado de tudo.